Quarta-feira, Julho 08, 2009
cigarra urbana
Então a formiga disse: "Cantou? Então agora dance!"
E foi exatamente isso que eu fiz. Depois de quatro anos e meio cantando em um grupo de coral regularmente, resolvi entrar na dança também. Dança clássica, que é para eu me sentir um pouco da bailarina que sonhava em ser quando criança.
Hoje saí da aula realizada, me sentindo feliz. "Não precisa de mais nada". Todas as lamúrias chatas foram embora. Afinal, pensei, eu canto e danço.
Sou uma cigarra de São Paulo. Uma cigarra urbana. Porém, formigas, tratem de saber que as cigarras se modernizaram, mudaram com o tempo. E assim eu sou uma cigarra trabalhadeira. Acordo cedo, passo oito horas no emprego de segunda a sexta, estudo à noite e mantenho a casa em ordem. Temos mesmo que cantar e dançar. Porque virar uma formiga rabujenta, ninguém merece.
E foi exatamente isso que eu fiz. Depois de quatro anos e meio cantando em um grupo de coral regularmente, resolvi entrar na dança também. Dança clássica, que é para eu me sentir um pouco da bailarina que sonhava em ser quando criança.
Hoje saí da aula realizada, me sentindo feliz. "Não precisa de mais nada". Todas as lamúrias chatas foram embora. Afinal, pensei, eu canto e danço.
Sou uma cigarra de São Paulo. Uma cigarra urbana. Porém, formigas, tratem de saber que as cigarras se modernizaram, mudaram com o tempo. E assim eu sou uma cigarra trabalhadeira. Acordo cedo, passo oito horas no emprego de segunda a sexta, estudo à noite e mantenho a casa em ordem. Temos mesmo que cantar e dançar. Porque virar uma formiga rabujenta, ninguém merece.
Quinta-feira, Abril 23, 2009
reencontrei minha identidade
Antes que eu perguntasse qualquer coisa para o moço do guichê, bati meus olhos no vidro que nos separava e falei de alegria: "Minha identidade!". Lá estava ela, esse tempo todo, a mostra na bilheteria do cinema. Ele me pediu documento para comprovar e eu tive meu RG de volta.
Fiquei feliz por não ter pedido uma manha inteira de sábado em um poupa-tempo.
Já tinha ligado para o "achados e perdidos" do shopping e não sabiam dela. Lembro que perguntei se havia possibilidade de estar na bilheteria e me falaram com pouco ânimo que talvez. Acho que me deixei contagiar por esta falta de esperança, o que explica o fato de só quase 20 dias depois eu ter tomado a iniciativa de verificar se o documento estava com o pessoal do cinema. Isto que a bilheteria fica a um quarteirão de minha casa e está dentro do meu percurso de todos os dias.
Estava tão tomada com algumas tristezas nos últimos tempos que não tive muito ânimo de procurá-la. Mas ela ficou lá quietinha, a minha espera. Não imaginava que estava tão perto e que seria tão fácil encontrá-la. Minha identidade querida, que feliz reencontro!
Ao chegar na rua, estava com o olhar mais radiante do que quando entrara no shopping. Havia cor e vitalidade nas maçãs do rosto. Minha bolsa parecia estar completa novamente. Emitíamos luz neste final de tarde chuvoso. O caminhar era como uma dança.
Pensava na foto. Ficava feliz. Tinha idéias de refazer o documento com a mesma foto 3x4, se fosse preciso.
Minha identidade não saiu totalmente ilesa depois de passar esse tempo em mãos de outras pessoas. Estava sem a capinha de plástico. Perdeu parte de sua proteção. Mas isso eu arrumo.
Fiquei feliz por não ter pedido uma manha inteira de sábado em um poupa-tempo.
Já tinha ligado para o "achados e perdidos" do shopping e não sabiam dela. Lembro que perguntei se havia possibilidade de estar na bilheteria e me falaram com pouco ânimo que talvez. Acho que me deixei contagiar por esta falta de esperança, o que explica o fato de só quase 20 dias depois eu ter tomado a iniciativa de verificar se o documento estava com o pessoal do cinema. Isto que a bilheteria fica a um quarteirão de minha casa e está dentro do meu percurso de todos os dias.
Estava tão tomada com algumas tristezas nos últimos tempos que não tive muito ânimo de procurá-la. Mas ela ficou lá quietinha, a minha espera. Não imaginava que estava tão perto e que seria tão fácil encontrá-la. Minha identidade querida, que feliz reencontro!
Ao chegar na rua, estava com o olhar mais radiante do que quando entrara no shopping. Havia cor e vitalidade nas maçãs do rosto. Minha bolsa parecia estar completa novamente. Emitíamos luz neste final de tarde chuvoso. O caminhar era como uma dança.
Pensava na foto. Ficava feliz. Tinha idéias de refazer o documento com a mesma foto 3x4, se fosse preciso.
Minha identidade não saiu totalmente ilesa depois de passar esse tempo em mãos de outras pessoas. Estava sem a capinha de plástico. Perdeu parte de sua proteção. Mas isso eu arrumo.
Sexta-feira, Fevereiro 27, 2009
uma mulher se maquiando
Uma mulher se maquiando chama a minha atenção. Gosto de ver como as cores e os traços modificam seu rosto. Apesar de a etiqueta dizer que não se deve maquiar em público, não deixo de encontrar mulheres que se maquiam diariamente em ônibus e no metrô. Mesmo com o balançar do transporte público, com as freadas bruscas, não se avexam e lascam da bolsa o lápis preto. Em um momento de pura concentração e dedicação, e também de certo perigo, fazem os traços de acordo com sua personalidade: finos ou largos, suaves ou marcantes, curtos ou longos, camuflados ou evidentes. Às vezes se quer um efeito sombreado, outras um traço preciso. O agito do veículo some nesse momento compenetrado. Tudo para. E eu mergulho nesse instante, com seriedade, acompanhando cada passo, esperando visualizar com sucesso o antes e depois, como naqueles programas de TV. Observo que o estojo de pó está pela metade e penso: “Essa deve se maquiar todo dia para ir ao trabalho”. Ou sinto uma leve frustração quando vejo que o esfregar insistente da esponja com pó compacto no rosto não causa efeito algum, pelo menos para a minha percepção. “Será que ela acha que faz?”.
A mulher em frente ao seu pequeno espelho quase não nota a presença dos outros ao seu redor. Está com seu olhar fixo em seus próprios olhos, que vão ganhando novo visual com o lápis, o delineador, a sombra, o rímel. Ou tem seus olhos voltados para a maçã do rosto, que às vezes ganha blush. Também fica entretida com uma espinha, uma manchinha, as olheiras, que serão cobertas de base, pó ou pan cake. Enfim, está atenta a pequenas partes do rosto, limitadas pelo espelho, mas que formam um todo, que ela por enquanto não vê, e sim, os passageiros mais atentos.
Enfim, entra com cara de sono em uma estação e sai radiante em outra. E assim permanecerá, até que, à noite, o algodão, a loção demaquilante, o sabão e água da torneira mostrem no rosto, com mais ênfase, o cansaço de um dia todo, os sinais das emoções vividas e as olheiras, que parecem estar ligeiramente mais fundas.
A mulher em frente ao seu pequeno espelho quase não nota a presença dos outros ao seu redor. Está com seu olhar fixo em seus próprios olhos, que vão ganhando novo visual com o lápis, o delineador, a sombra, o rímel. Ou tem seus olhos voltados para a maçã do rosto, que às vezes ganha blush. Também fica entretida com uma espinha, uma manchinha, as olheiras, que serão cobertas de base, pó ou pan cake. Enfim, está atenta a pequenas partes do rosto, limitadas pelo espelho, mas que formam um todo, que ela por enquanto não vê, e sim, os passageiros mais atentos.
Enfim, entra com cara de sono em uma estação e sai radiante em outra. E assim permanecerá, até que, à noite, o algodão, a loção demaquilante, o sabão e água da torneira mostrem no rosto, com mais ênfase, o cansaço de um dia todo, os sinais das emoções vividas e as olheiras, que parecem estar ligeiramente mais fundas.
Segunda-feira, Fevereiro 09, 2009
diálogo
Sinto que as almas estão presas. Vejo nas ruas almas apertadas, outras debatendo-se, outras sufocadas. As pessoas andam curvadas, andam ansiosas, desanimadas, mas não sabem onde estão sua alma, sequer pensam que têm alguma. Suas mentes a aprisionam. Suas mentes dão espaço demais pro julgamento alheio, para o objetivo de ser um vencedor dentro dos parâmetros criados por outras pessoas que também estão preocupadas com o julgamento alheio. Nossa mente cria muitos medos, cria muitas regras e se mune para não sofrer de novo as desilusões do passado. Porém, às vezes a munição pode ser pesada demais.
“Você se lembra? Você me dizia que aos 17 anos gostava de andar pulando pela Avenida Paulista, só para ver a cara de desdém daquelas gravatas, daqueles saltos altos. Hoje, se alguém passa assim por você, talvez você ignore também, ou então dê um sorriso sutil, nostálgico. Parece que os grandes sonhos povoavam com mais facilidade a nossa mente. E hoje a gente tem o hábito de dizer logo depois de confessar algum plano: É... a situação não está fácil. Nada está fácil".
A gente tenta se encaixar em um lugarzinho, mas a nossa alma não se encaixa. Ela não gosta de se encaixar. Ela gosta de ser livre, de voar, de sentir o vento. Também gosta de um aconchego, mas um aconchego do jeito dela e não daquilo que dizem pra gente que é aconchego. A gente pode até fingir que acredita, mas ela não.
“Você se lembra? Você me dizia que aos 17 anos gostava de andar pulando pela Avenida Paulista, só para ver a cara de desdém daquelas gravatas, daqueles saltos altos. Hoje, se alguém passa assim por você, talvez você ignore também, ou então dê um sorriso sutil, nostálgico. Parece que os grandes sonhos povoavam com mais facilidade a nossa mente. E hoje a gente tem o hábito de dizer logo depois de confessar algum plano: É... a situação não está fácil. Nada está fácil".
A gente tenta se encaixar em um lugarzinho, mas a nossa alma não se encaixa. Ela não gosta de se encaixar. Ela gosta de ser livre, de voar, de sentir o vento. Também gosta de um aconchego, mas um aconchego do jeito dela e não daquilo que dizem pra gente que é aconchego. A gente pode até fingir que acredita, mas ela não.
Quarta-feira, Abril 23, 2008
até que foi rápido
(Para entender o título, leia o post anterior)
Não ando escutando o que vejo. Onde foram parar os momentos de contemplação durante as viagens de ônibus, durante o caminhar na rua? Onde foram parar as observações, os momentos de sensibilidade que alimentavam este blog?
São raros os momentos em que escuto o que vejo, e mesmo quando isso acontece, as idéias viram bilhetinhos, anotações em agendas, em murais, chegam até virar frases soltas em arquivos do computador, mas há tempo que não saem disso. Muitas são abortadas de início, sem tempo de se desenvolverem ao menos um pouquinho. Outras se perdem por aí, ficam na espera; às vezes se cansam e vão viajar, outras se perdem. E eu sou cúmplice. Sei o que acontece, mas deixo.
O tempo de contemplação no ônibus virou hora de dormida automática. Momento único no dia de aproveitar a carência de sono que parece nunca cessar. Posição sentada, banco duro, balanço, barulho, o transitar de pessoas não são mais obstáculos. Em poucos minutos o corpo adormece e só acorda de vez poucos segundos antes do ponto final. Passar do ponto sem querer? Não! Não temos tempo a perder.
Não há mais tempo para ter receio de se misturar àqueles dormidores profissionais de ônibus. A cabeça balançando conforme o movimento do transporte público, de forma natural. Outras cabeças com o pescoço voltado para trás, a boca aberta. Outras quase pendendo no ombro do passageiro ao lado, porém, devido a uma habilidade sem igual, não chegam a encostar. Quando estão quase no ponto de tocar o ombro alheio, o movimento do ônibus e a vigília os levam de repente para o lado oposto.
Se abro os olhos de relance, é a cena que vejo ao meu redor. Olhos fechados, pescoços inclinados, e as cabeças balançando... para lá e para cá... para lá, e para cá... até que os olhos se abram assustados, descobrindo que o ponto de descer está próximo.
Faz tempo que não vejo do ônibus aqueles homens na calçada que passam por uma mulher e depois olham para trás para olhar a sua bunda. E mesmo se visse, talvez não encontrasse tempo para escrever sobre o assunto. A enxurrada de atividades do dia quase não permite... ela nos vai empurrando, empurrando... e a gente deixa. Eu deixo. A agitação, a correria viraram porto seguro, o nosso lar. O que fazer sem elas?
Assim sobra tempo demais para pensar... e isso pode dar medo. Sobra tempo demais para escrever... e aí? O que fazer com todo esse tempo de solidão? Que tipo de pensamentos virão? Que tipo de texto sairá?
Mas os momentos de coragem existem... eu sei que existem porque este texto está aqui. As pessoas gostando ou não. Eu gostando ou não. Hoje o fio da idéia passou por mim e eu o peguei. Me concentrei para não perdê-lo durante a caminhada para casa. Penso em quantas vezes não o vi, ou quantas vezes cheguei a pegá-lo, mas logo larguei. A mulher vestida de noiva caminhando ao léu na Paulista, às duas da tarde, sozinha e em dia útil, a mulher que briga com o motorista se o sinal fecha e ele não conseguiu passar; essas e outras cenas estão por aí. Imagino um leitor falando: “Não faça isso, não nos abandone.” Provavelmente não tenho notado sua voz. E então ficamos distantes. Mas sei que podemos nos aproximar novamente. Sei que o fio da idéia está por perto e, se prestarmos atenção, podemos pegá-lo. Pode ser o início de uma grande amizade.
texto escrito em 12/4, de madrugada
relido hoje
Não ando escutando o que vejo. Onde foram parar os momentos de contemplação durante as viagens de ônibus, durante o caminhar na rua? Onde foram parar as observações, os momentos de sensibilidade que alimentavam este blog?
São raros os momentos em que escuto o que vejo, e mesmo quando isso acontece, as idéias viram bilhetinhos, anotações em agendas, em murais, chegam até virar frases soltas em arquivos do computador, mas há tempo que não saem disso. Muitas são abortadas de início, sem tempo de se desenvolverem ao menos um pouquinho. Outras se perdem por aí, ficam na espera; às vezes se cansam e vão viajar, outras se perdem. E eu sou cúmplice. Sei o que acontece, mas deixo.
O tempo de contemplação no ônibus virou hora de dormida automática. Momento único no dia de aproveitar a carência de sono que parece nunca cessar. Posição sentada, banco duro, balanço, barulho, o transitar de pessoas não são mais obstáculos. Em poucos minutos o corpo adormece e só acorda de vez poucos segundos antes do ponto final. Passar do ponto sem querer? Não! Não temos tempo a perder.
Não há mais tempo para ter receio de se misturar àqueles dormidores profissionais de ônibus. A cabeça balançando conforme o movimento do transporte público, de forma natural. Outras cabeças com o pescoço voltado para trás, a boca aberta. Outras quase pendendo no ombro do passageiro ao lado, porém, devido a uma habilidade sem igual, não chegam a encostar. Quando estão quase no ponto de tocar o ombro alheio, o movimento do ônibus e a vigília os levam de repente para o lado oposto.
Se abro os olhos de relance, é a cena que vejo ao meu redor. Olhos fechados, pescoços inclinados, e as cabeças balançando... para lá e para cá... para lá, e para cá... até que os olhos se abram assustados, descobrindo que o ponto de descer está próximo.
Faz tempo que não vejo do ônibus aqueles homens na calçada que passam por uma mulher e depois olham para trás para olhar a sua bunda. E mesmo se visse, talvez não encontrasse tempo para escrever sobre o assunto. A enxurrada de atividades do dia quase não permite... ela nos vai empurrando, empurrando... e a gente deixa. Eu deixo. A agitação, a correria viraram porto seguro, o nosso lar. O que fazer sem elas?
Assim sobra tempo demais para pensar... e isso pode dar medo. Sobra tempo demais para escrever... e aí? O que fazer com todo esse tempo de solidão? Que tipo de pensamentos virão? Que tipo de texto sairá?
Mas os momentos de coragem existem... eu sei que existem porque este texto está aqui. As pessoas gostando ou não. Eu gostando ou não. Hoje o fio da idéia passou por mim e eu o peguei. Me concentrei para não perdê-lo durante a caminhada para casa. Penso em quantas vezes não o vi, ou quantas vezes cheguei a pegá-lo, mas logo larguei. A mulher vestida de noiva caminhando ao léu na Paulista, às duas da tarde, sozinha e em dia útil, a mulher que briga com o motorista se o sinal fecha e ele não conseguiu passar; essas e outras cenas estão por aí. Imagino um leitor falando: “Não faça isso, não nos abandone.” Provavelmente não tenho notado sua voz. E então ficamos distantes. Mas sei que podemos nos aproximar novamente. Sei que o fio da idéia está por perto e, se prestarmos atenção, podemos pegá-lo. Pode ser o início de uma grande amizade.
texto escrito em 12/4, de madrugada
relido hoje
saudade
Meu blog,
que saudade de você!
Tanto tempo que não postava nada, que até me esqueci que agora você está vinculado ao Gmail.
Fui lá com a minha velha e boa senha, com meu velho e bom login... E o que aparece? A página do Gmail, pedindo o mesmo login e a senha do e-mail.
Que bom que você continua aí. E eu? Por onde tenho andado?
Ensaiei um texto semana passada... mas faltou coragem para publicar. Espero publicar logo.
Com carinho
Lúcia
que saudade de você!
Tanto tempo que não postava nada, que até me esqueci que agora você está vinculado ao Gmail.
Fui lá com a minha velha e boa senha, com meu velho e bom login... E o que aparece? A página do Gmail, pedindo o mesmo login e a senha do e-mail.
Que bom que você continua aí. E eu? Por onde tenho andado?
Ensaiei um texto semana passada... mas faltou coragem para publicar. Espero publicar logo.
Com carinho
Lúcia
Segunda-feira, Maio 21, 2007
a mulher no restaurante
Ficava curioso com aquela moça que às vezes aparecia no restaurante. Já havia ficado meses sem aparecer, já havia também aparecido duas vezes na mesma semana. Aquela noite havia aparecido novamente; desta vez tarde, quando faltava pouco para o expediente se encerrar. Chegou sozinha, como na grande parte das vezes. Depositou seus livros, a bolsa, o casaco em cima da mesa. Vinha direto da rua, um pouco cansada, já um pouco zonza de conviver o dia todo com a agitação, o barulho e as malícias da grande cidade.
Sentou-se satisfeita, como dissesse “agora é hora do meu descanso”. Ela observou uma mesa com amigas e mais duas com casais. Já devia saber o que iria pedir, pois foi só o garçom chegar à mesa, que ela fez o pedido sem hesitar. Havia olhado o cardápio brevemente, como se já o conhecesse muito bem.
Na sua experiência de garçom, de longos anos, já havia visto muitas mulheres sozinhas no restaurante, mas essa chamava sua atenção: não só por ter ido ao restaurante vezes suficiente para que os garçons gravassem sua fisionomia, mas por ter algo especial, por parecer fazer questão de ir sozinha tantas vezes, enquanto poderia esperar um momento em que tivesse companhia. Além do mais era uma mulher bonita, dessas que qualquer um poderia perguntar: “O que faz uma mulher tão bonita estar sentada sozinha?”. Ele achava que ela tinha uma beleza elegante, uma fineza no jeito de ser.
Mas gostava era do momento que ela levava o copo de chop pela primeira vez à boca. Costumava admirar a espuma branca e cremosa e dava um gole de prazer. A partir daí o mundo ao redor ia ficando longe para ela, que ia se absorvendo cada vez mais nos pensamentos. Na face, um pouco de tristeza, um pouco de esperança; às vezes o brilho no olhar tornava-se mais intenso. As memórias a distraíam. Alguns lugares do restaurante também lhe despertavam lembranças.
O garçom já a havia visto com algumas companhias: alguns namorados, dois ou três, uma vez com família, outras vezes divertindo-se com amigos, uma vez quase chorando com amigos. Os namorados passaram, os amigos se revezavam, mas ela, sozinha, vira e mexe voltava. Talvez pensasse em um amor do passado, que já estivera com ela naquele lugar, talvez até pedisse o mesmo prato, só para recordar. Talvez pensasse em um amor futuro. Talvez não pensasse em nada disso.
Mas nenhum amor daqueles a olhava agora, talvez nem lembrasse dela, ou talvez ainda não a conhecesse. Nenhum namorado podia olhar agora aquela beleza, muito rara para ele, simplesmente porque geralmente vive na sua ausência. É a beleza da mulher quando está sozinha, com ela mesma, que curte e aproveita as riquezas de sua solidão. Nesse momento ela se fortalece, alimentando seus mistérios, seus pensamentos e sentimentos inatingíveis.
Ela pagou a conta, cumprimentou alguns dos garçons, saiu com postura e a cabeça ereta, provocando uma leve brisa de esperança.
Sentou-se satisfeita, como dissesse “agora é hora do meu descanso”. Ela observou uma mesa com amigas e mais duas com casais. Já devia saber o que iria pedir, pois foi só o garçom chegar à mesa, que ela fez o pedido sem hesitar. Havia olhado o cardápio brevemente, como se já o conhecesse muito bem.
Na sua experiência de garçom, de longos anos, já havia visto muitas mulheres sozinhas no restaurante, mas essa chamava sua atenção: não só por ter ido ao restaurante vezes suficiente para que os garçons gravassem sua fisionomia, mas por ter algo especial, por parecer fazer questão de ir sozinha tantas vezes, enquanto poderia esperar um momento em que tivesse companhia. Além do mais era uma mulher bonita, dessas que qualquer um poderia perguntar: “O que faz uma mulher tão bonita estar sentada sozinha?”. Ele achava que ela tinha uma beleza elegante, uma fineza no jeito de ser.
Mas gostava era do momento que ela levava o copo de chop pela primeira vez à boca. Costumava admirar a espuma branca e cremosa e dava um gole de prazer. A partir daí o mundo ao redor ia ficando longe para ela, que ia se absorvendo cada vez mais nos pensamentos. Na face, um pouco de tristeza, um pouco de esperança; às vezes o brilho no olhar tornava-se mais intenso. As memórias a distraíam. Alguns lugares do restaurante também lhe despertavam lembranças.
O garçom já a havia visto com algumas companhias: alguns namorados, dois ou três, uma vez com família, outras vezes divertindo-se com amigos, uma vez quase chorando com amigos. Os namorados passaram, os amigos se revezavam, mas ela, sozinha, vira e mexe voltava. Talvez pensasse em um amor do passado, que já estivera com ela naquele lugar, talvez até pedisse o mesmo prato, só para recordar. Talvez pensasse em um amor futuro. Talvez não pensasse em nada disso.
Mas nenhum amor daqueles a olhava agora, talvez nem lembrasse dela, ou talvez ainda não a conhecesse. Nenhum namorado podia olhar agora aquela beleza, muito rara para ele, simplesmente porque geralmente vive na sua ausência. É a beleza da mulher quando está sozinha, com ela mesma, que curte e aproveita as riquezas de sua solidão. Nesse momento ela se fortalece, alimentando seus mistérios, seus pensamentos e sentimentos inatingíveis.
Ela pagou a conta, cumprimentou alguns dos garçons, saiu com postura e a cabeça ereta, provocando uma leve brisa de esperança.
Sábado, Março 24, 2007
aqueles raros momentos
Como disse no post anterior, estou sozinha em casa, gripada, nesta noite de sábado. Mas coisas boas acontecem também nessas horas. Uma delas é que, ao escrever, olhei para a janela do meu quarto e vi a lua, uma meia lua, que amanhã será crescente. Raramente vejo a lua da janela do meu quarto. Inclusive, durante mais de um ano achei que isso não era possível, que a posição da minha janela impedia tal proeza. Foi quando numa madrugada em que estava acordada percebi meu quarto se clarear todo, com uma luz que não parecia a lâmpada acesa do apartamento em frente ao meu. Era uma luz bonita, de outra cor, serena, fantástica. Era difícil acreditar, quando olhei o céu, que uma lua cheia maravilhosa vinha nos visitar, vinha fazer parte da vista da minha janela.
Lembro que aquela descoberta e a presença da lua tornou aquele momento muito mais especial. Não sei quanto às outras pessoas, talvez nem se lembrem, talvez nem a viram. Aliás, quantas vezes a lua não deve ter feito parte da vista da minha janela e eu nem percebi, por estar dormindo ou ocupada com outra coisa? Esse é um daqueles momentos raros em que eu a vejo. Também, se não fosse tão raro, eu talvez nem me importaria. E talvez este texto não estaria escrito aqui, para gosto ou desgosto do leitor.
Lembro que aquela descoberta e a presença da lua tornou aquele momento muito mais especial. Não sei quanto às outras pessoas, talvez nem se lembrem, talvez nem a viram. Aliás, quantas vezes a lua não deve ter feito parte da vista da minha janela e eu nem percebi, por estar dormindo ou ocupada com outra coisa? Esse é um daqueles momentos raros em que eu a vejo. Também, se não fosse tão raro, eu talvez nem me importaria. E talvez este texto não estaria escrito aqui, para gosto ou desgosto do leitor.
depois de tanto tempo
Depois de tanto tempo
Depois de oito meses sem escrever nada neste blog, tenho minhas dúvidas de que alguém ainda tenha a paciência de entrar aqui. Há algumas semanas ou meses venho pensando em escrever, guardando algumas idéias, porém só hoje consegui arrumar um tempo. Fui obrigada a arrumar um tempo. Já que estou gripada e, em vez de ir a uma festa de aniversário de um amigo, que imagino que será bem divertida, estou tendo de passar a noite de sábado sozinha, em casa.
Ao fundo escuto uns exercícios de técnica vocal gravados por um coralista que está contribuindo bastante para aumentar a monotonia deste momento. Ao som do piano, vozes femininas ou masculinas cantam “uuuuu” ou “oooooo” e “brrrrrrrrr”. E além disso, ouço a professora, com voz cuidadosa, dar instruções como “agora só sopranos e tenores”. Bem... a gravação acabou agora e eu me sinto mais aliviada.
Não tenho esperanças de escrever nada grandioso ou surpreendente hoje, afinal seria esperar muito depois de tanto tempo sem postar um único texto. O mais provável é que eu encontre minha cabeça entulhada de idéias e imagens que guardei durante todo este tempo e, portanto, já fico feliz se conseguir não bombardeá-las todas de uma vez aqui, como sei que às vezes costumo fazer. Quem sabe não deixar o bombardeio para o texto seguinte? Seria mais simpático de minha parte.
Mas alguém poderia se perguntar: “Mas será que essa menina só está escrevendo aqui porque está doente e não tem mais nada para fazer?” Bem... não sejamos tão rigorosos. Vamos pensar que se trata apenas de uma coincidência. Sei, porém, que para escrever algo é preciso entrar em contato consigo mesmo. Para mim, escrever aqui só é possível quando estou sozinha. Isto não significa que a presença de mais alguém em minha casa me impeça de escrever. Eu preciso estar sozinha com meus pensamentos, sentir a minha solidão e a minha companhia, de que tantas vezes fujo ao me distrair com a companhia de outras pessoas, com compromissos sem fim, com internet e com coisas a fazer. Uma atividade incessante que esconde meu medo de parar e não saber o que irei encontrar.
(Fazia tempo mesmo. Não estava nem conseguindo acessar minha página. Muito menos sabia que agora esse site é do Google)
Depois de oito meses sem escrever nada neste blog, tenho minhas dúvidas de que alguém ainda tenha a paciência de entrar aqui. Há algumas semanas ou meses venho pensando em escrever, guardando algumas idéias, porém só hoje consegui arrumar um tempo. Fui obrigada a arrumar um tempo. Já que estou gripada e, em vez de ir a uma festa de aniversário de um amigo, que imagino que será bem divertida, estou tendo de passar a noite de sábado sozinha, em casa.
Ao fundo escuto uns exercícios de técnica vocal gravados por um coralista que está contribuindo bastante para aumentar a monotonia deste momento. Ao som do piano, vozes femininas ou masculinas cantam “uuuuu” ou “oooooo” e “brrrrrrrrr”. E além disso, ouço a professora, com voz cuidadosa, dar instruções como “agora só sopranos e tenores”. Bem... a gravação acabou agora e eu me sinto mais aliviada.
Não tenho esperanças de escrever nada grandioso ou surpreendente hoje, afinal seria esperar muito depois de tanto tempo sem postar um único texto. O mais provável é que eu encontre minha cabeça entulhada de idéias e imagens que guardei durante todo este tempo e, portanto, já fico feliz se conseguir não bombardeá-las todas de uma vez aqui, como sei que às vezes costumo fazer. Quem sabe não deixar o bombardeio para o texto seguinte? Seria mais simpático de minha parte.
Mas alguém poderia se perguntar: “Mas será que essa menina só está escrevendo aqui porque está doente e não tem mais nada para fazer?” Bem... não sejamos tão rigorosos. Vamos pensar que se trata apenas de uma coincidência. Sei, porém, que para escrever algo é preciso entrar em contato consigo mesmo. Para mim, escrever aqui só é possível quando estou sozinha. Isto não significa que a presença de mais alguém em minha casa me impeça de escrever. Eu preciso estar sozinha com meus pensamentos, sentir a minha solidão e a minha companhia, de que tantas vezes fujo ao me distrair com a companhia de outras pessoas, com compromissos sem fim, com internet e com coisas a fazer. Uma atividade incessante que esconde meu medo de parar e não saber o que irei encontrar.
(Fazia tempo mesmo. Não estava nem conseguindo acessar minha página. Muito menos sabia que agora esse site é do Google)