quarta-feira, março 21, 2012

 

pina e a arte

Dos muitos depoimentos que me marcaram no documentário Pina, de Wim Wenders, um foi especial. "Você precisa enlouquecer mais", reproduziu uma das bailarinas do filme a frase que certa vez ouvira de Pina. Da mesma forma que a frase ficou guardada com a bailarina talvez fique guardada comigo. Consigo ver muito sentido nesta fala ao pensar em dança, ainda mais quando lembro da cena do filme em que uma das bailarinas salta em direção ao chão como em um mergulho e, totalmente de ponta cabeça, é segurada por um dos bailarinos um pouco antes do temido final de seu percurso. A cena mostra um exemplo extremo de confiança, coragem e beleza. Um momento de entrega em que talvez o objetivo final seja apenas arte. Será que vem daí a beleza da arte? Da entrega corajosa do artista, do mergulho nas emoções, que no dia a dia são tão emolduradas e contidas?

O que Pina Bausch fez é um exemplo para qualquer tipo de arte. É preciso enlouquecer, libertar-se das amarras construídas ao longo da vida, livrar-se dos preconceitos e chegar perto dos medos, das tristezas, das frustrações, do prazer, do amor. Quem sabe seja assim que a arte continue nos dando esse olhar surpreso diante da vida.

segunda-feira, novembro 07, 2011

 

caixas brancas

Quando minha tia voltou de uma viagem à Europa, em 90, trouxe, entre muitas coisas, uma boneca para a minha prima. Não era uma boneca qualquer. Era daquelas que considerávamos chiques e as quais tínhamos, então, de tratar com todo o cuidado possível. Praticamente não era uma boneca de brincar, e sim, de enfeitar. Se não me engano, era feita de material que quebrava, talvez porcelana. Tinha o vestido de tecidos nobres para uma boneca, cheio de delicadezas e rendas. O rosto era bem feitinho, com traços finos, o que considerávamos exemplo de uma beleza europeia.

Não me lembro ao certo da sua cor de cabelo, nem da cor de seu vestido; talvez fosse amarelo. Mas não esqueço da caixa em que a boneca veio: mais ou menos do tamanho de uma caixa de sapatos, de papel duro e branca. Branca, branca, sem nada escrito, sem um número, uma palavra, um logotipo. Na minha experiência de criança, achei aquilo o máximo da sofisticação, se é que tal conceito já existia na minha cabeça. Era lindo. Uma boneca tão fina, dentro de uma caixa simplesmente branca. Nada daquelas caixas que eu estava acostumada a ver no Brasil, cheias de cores extravagantes, fontes das mais inusitadas, todas desejando chamar mais a atenção do que as outras para a sua marca.

Eu costumava usar essas caixas para guardar coisas no meu armário. Em uma guardava cartas, em outras guardava brinquedinhos, em outra guardava minha barbie com suas roupinhas. De repente me veio na cabeça uma linda imagem: e se todas aquelas caixas guardadas no meu armário fossem brancas? E fui além; imaginei o armário repleto apenas de caixas brancas, uma em cima da outra, todas do mesmo tamanho, se encaixando com perfeição. O que teria dentro delas era outra história, pois, afinal, quem observasse de fora não veria a imensa variedade de objetos que escondiam, as diversas cores, formatos, tamanhos, a forma caótica com que esses itens se ajeitavam; veria apenas uma cena homogênea, uma periodicidade branca.

Quis compartilhar as minhas ideias com minha prima:

"Às vezes você não acha que seria mais legal se todas as caixas fossem brancas, assim, desse tamanho?"

"Não" — ela respondeu.

A reposta espontânea e sincera de minha prima me surpreendeu. Então era só eu que pensava aquelas coisas. Comecei a me achar estranha. Realmente, porque alguém iria querer que todas as caixas fossem brancas se, afinal, poderiam existir tantas caixas bonitinhas por aí. Além do mais, por que ficar admirando uma caixa se o principal é o que vinha dentro dela? Será que era possível alguém admirar uma caixa branca, como eu? Minha prima provavelmente a ignorava, talvez, principalmente por ser branca e não trazer nenhum diferencial. Pouco tempo depois de ter voltado à sua cidade e ter colocado sua boneca na prateleira, deve ter jogado a caixa fora, sem dó.

Mesmo percebendo que ela não ligava para a caixa, não tive coragem de pedir. Afinal, uma caixa daquela não era suficiente; eu desejava muitas delas.

Ao perceber tudo isso, pensei que poderia ser como essas pessoas que eu imaginava não ligarem para caixas, nem para o fato de serem brancas, coloridas, escritas ou não. Mas eu já não era.

domingo, outubro 30, 2011

 

alemão

O dia em que o encontrei considerei um dia de sorte. Estava cansada dos pedreiros enrolados e picaretas que costumavam prestar serviço no meu prédio. Mas, mesmo com poucas esperanças, fui perguntar ao porteiro se ele conhecia alguém que poderia pregar umas prateleiras e um varal, além de fazer outros servicinhos pendentes no meu apartamento. Foi quando ele apareceu. E logo o porteiro falou: "Acho que o Alemão pode". E voltando-se para ele: "Não pode, Alemão?"

Alemão era diferente dos outros. Forte, largo, galego, parecia ter 1,70 de altura x 1,70 de largura. Careca, fazia-me lembrar do tio Fester da família Addams, porém, tinha uma generosidade em seu falar. Combinamos um dia para ele apaecer em casa.

No dia marcado, Alemão atrasou. Os porteiros me informaram em qual apartamento ele fazia a reforma. Fui até lá. Com um moço, seu ajudante, ele trocava o piso de um apartamento vazio. Fazia o trabalho descalço, acentando aqueles grandes pisos de cerâmica no chão. Seus pés, grandes, gordos, caludos, estavam cobertos de um pó fino, esbranquiçado. Deixou seus assistente continuar o serviço e, para visitar minha casa, calçou seus chinelos respeitosamente.

Para fazer todo o serviço, Alemão passou três dias pela minha casa. Fez uma revolução. Consertou até o que eu não imaginava. Além de pregar o mini varal e as prateleiras, arrumou a porta do armário da cozinha, as tomadas, mexeu na fiação elétrica, apertou os parafusos da cama e ainda me deu instruções para arrumar os puxadores do armário e das gavetas. Tudo com vontade e energia. A sua posição ao apertar um parafuso na parede, o modo como transferia seu peso para a frente pareciam ser totalmente pensados para que seu corpo se tornasse uma perfeita extensão da ferramenta que usava, fosse uma chave de fenda ou uma furadeira.

Queria deixar as prateleiras bem firmes, então pediu que eu comprasse buchas raiol, que dariam mais segurança, já que considerava as paredes muito fraquinhas. As buchas raiol praticamente se ancoravam na parede, o que deixou o negócio tão firme que até Alemão não conseguiu apertar os parafusos manualmente. Teve que voltar outro dia com sua furadeira de apertar parafusos. Comentei:

"É, Alemão. Agora essas prateleiras não saem nunca mais..."

O jeito com que respondeu me deu a imoressão de que, para ter minhas prateleiras de volta, provavelmente eu teria que levar a parede junto...

Com Alemão era assim: tudo era firme, forte, era pra valer.

E quando parecia que ele estava só prestando atenção em seu trabalho, voltou-se para o meu namorado e falou:

"Você não se incomoda se eu fizer uma pergunta?"

Ele queria saber se meu namorado tinha bronquite, pois estava ouvindo sua respiração difícil.

"Não, é rinite", falamos.

Alemão aproveitou para dar uma receita de remédio para bronquite que uma velha tinha dado para ele quando era menino. Por incrível que pareça Alemão já sofrera de bronquite quando menino e dizia ter sido curado pela receita preparada por essa velha de Mato Grosso do Sul, de onde ele vinha. Explicou duas vezes a receita, pois eu pedi detalhes. Tinha que abrir o casco do boi, pegar o tutano e cozinhar. Depois tinha que peneirar e jogar o líquido no café todos os dias, durante não sei quanto tempo.

"Mas tem que ser no café", reforçava.

A mulher e o filho de Alemão estavam no Mato Grosso do Sul. Ele vinha periodicamente para São Paulo fazer serviços. Seu assistente ainda estranhava a cidade grande. Comentou que ainda não tinha se acostumado e que achava os apartamentos daqui muito pequenos. Também evitava pegar o elevador.

Enquanto pregava o varal, Alemão me contou que voltaria para sua cidade para ficar bastante tempo. Sua mulher iria fazer uma cirurgia.

Perguntei do que era a cirurgia.

Ele interrompeu o que estava fazendo, voltou-se para mim, olhando fixamente, com ar sério:

"É de ursa".

Voltou então ao varal.

Quando o serviço acabou, Alemão cobrou mais barato do que eu esperava. Desejei melhoras à sua mulher.

Uns dias depois, à noite, eu entrava no meu prédio quando meu namorado viu Alemão lá fora. Estava sentado cabisbaixo. Parecia chorar. Naquela noite quente, o brilho da lua atingia tudo, inclusive Alemão, sentado na muretinha, desolado, deixando triste o seu redor. Pensei se poderia ser alguma notícia da sua mulher. Meu coração partia ao ver aquela muralha desmoronada, os pés de havaianas no chão. Depois disso não o vi mais. Sabendo que fazia muitos serviços para o prédio, resolvi perguntar ao porteiro alguns meses depois:

"Nunca mais vi", respondeu-me, sem saber me dar mais notícias.

domingo, outubro 23, 2011

 

ao senso comum

Enquanto o ônibus estava parado no semáforo vermelho, o motorista aproveitou para sair do ônibus rapidamente. Voltou com um copo de café para o cobrador. Lembrei que uma amiga minha já havia contado: eles tinham o costume de descer naquele ponto para buscar água no posto de gasolina.

O cobrador perguntou: "Está bom?". E o motorista respondeu, sorrindo: "Não sei, não experimentei antes para saber!". Bem humorado voltou ao volante e o cobrador começou a tomar o seu café, em um copo descartável. "Mas está bom", continuou o cobrador com o diálogo. "É, está melhor que antes", completou.

O motorista voltou-se para trás, entendendo. "É, antes eram eles que faziam. Agora são umas mulheres que estão fazendo".

"É, está bem melhor", disse o cobrador.

Olhei pela janela e observei o posto de gasolina: duas ou três mulheres frentistas. Nenhum homem no local. "Será que foram todos substituídos por mulheres?", pensei.

E o motorista continuou: "Tudo o que a mulher faz é mais gostoso..."

Então os dois ficaram por um instante em silêncio, o motorista olhando para o trânsito, o cobrador concentrado em seu café. E eu já começara a imaginar se havia malícia em sua frase, quando o motorista continuou em voz alta sua reflexão, com um tom doce e de admiração:

"Tudo..."

sábado, setembro 24, 2011

 

tem sobrando?

Desci do ônibus, no meio do caminho entre Augusta e Consolação. Por qual das duas seguir? "Ah, Consolação de novo, não". Direcionei-me para a Augusta. Pela calçada, passo em frente a um homem, velho, de barbas compridas e brancas, sentado no chão. Olho discretamente para ele. Não queria que ele percebesse que eu o queria olhar. Queria disfarçar minha curiosidade. Percebi que foi em vão quando escutei algo como: "Tem sobrando?". Não sei ao certo se foi isso que ele falou. Só sei que em centésimos de segundos eu já estava com uma expressão de quem pede clemência, respondendo: "Não, não tenho". Com a mesma velocidade, voltei o rosto a para frente, continuando a caminhada. O gesto foi rápido, mas a reverberação em meu coração foi mais lenta.

Queria que fosse ignorado o fato de que eu estava em pé e ele sentado no chão sujo. Queria que não me fizesse pensar se eu tinha ou não algo sobrando. E se, em relação a ele, eu tinha algo sobrando. E o pior é que o homem disse a tal frase de um jeito que parecia mais oferecer algo a mim do que realmente pedir. Afinal, o que ele dissera, na verdade? Será que eu que inventara a pergunta "Tem sobrando?" por imaginar que provavelmente ele me pediria algo? A dúvida ficou.

Duas semanas depois, estou no mesmo ponto. "A Augusta hoje vale mais a pena", me decidi. Caminhando pela mesma calçada, enxergo lá na frente o homem, sentado no chão, em frente ao mesmo portão da outra vez. Só que agora ele está rodeado de pombos. Uns dois estão em seu braço, outro se sustenta no no dorso de sua mão e uns quatro passeiam pelo chão. Vou me aproximando e, quando chego em frente, tento dar a mesma olhada discreta, apesar de que minha vontade é ficar observando durante horas, conversar com o homem, saber se ele alimenta os pombos, saber se sempre está lá. Novamente minha tentativa de discrição foi em vão. Ouço novamente a sua voz: "Oi!". Voltando-me para ele, respondo sem ter tempo para pensar: "Oi". Nas frações de segundo em que olhei para ele, não pude escapar de me fixar em seus olhos, que sorriam como criança, perto das rugas e da barba comprida e branca. Logo voltei o rosto para a frente, sentindo-me um muro de pedras achatadas pelo sorriso do homem.

Ao dobrar a esquina, pensei: "Acho que, se um dia ele se for, os pombos vão sentir sua falta".

terça-feira, setembro 21, 2010

 

a lebre e a tartaruga

Com o sono que acordei hoje, qualquer sapato que pensava em colocar soava como um esforço a mais na minha jornada. Depois de muita relutância, pois teria de romper com o estilo habitual do meu trabalho, resolvi colocar um tênis. Andando ligeira pela Augusta, pois a dificuldade de acordar e a indecisão pelo calçado me atrasaram, de repente me deparei com obstáculos no caminho. Além das pessoas que esperavam o ônibus na calçada, um casal contribuía para tomar todo o espaço restante. Tive que seguir atrás deles, porém percebi que o ritmo dos dois estava muito lento. Olhei para baixo e vi parte do salto da moça, de tamanho exagerado. Era tão alto que dava espaço até para enfeitinhos. Era preto com bolinhas brancas. E com esforço quase sobre-humano a moça tentava se deslocar sobre eles por essas calçadas revoltantemente estragadas da região da paulista. (Se na Paulista já é assim, imagine em outras regiões da cidade). Solidarizando-se com ela, o namorado a ajudava, como alguém ajuda uma velhinha de mais de 80 anos a andar pelas ruas.

A calça da moça também não parecia contribuir. Em estilo social, era mais justa que uma legging de academia, evidenciando o traseiro avantajado. Não entendo como algo com a intenção de ser social é usado de forma que pareça vulgar. Não sou contra saltos nem roupas justas, mas há momentos em que é bom refletir. Se um salto, que tem a intenção de transmitir elegância, a deixa andando como uma pata, qual a sua utilidade?

Em contraste com a cena que presenciei de manhã, o que vemos hoje com facilidade são idosas nas ruas com roupas e tênis confortáveis, que lhes dão agilidade nos passos. Como lebres, ultrapassam as moças jovens de saltos escandalosamente altos, que andam a passos de tartaruga. Esse mundo está invertido ou não está?

quarta-feira, julho 08, 2009

 

cigarra urbana

Então a formiga disse: "Cantou? Então agora dance!"
E foi exatamente isso que eu fiz. Depois de quatro anos e meio cantando em um grupo de coral regularmente, resolvi entrar na dança também. Dança clássica, que é para eu me sentir um pouco da bailarina que sonhava em ser quando criança.
Hoje saí da aula realizada, me sentindo feliz. "Não precisa de mais nada". Todas as lamúrias chatas foram embora. Afinal, pensei, eu canto e danço.
Sou uma cigarra de São Paulo. Uma cigarra urbana. Porém, formigas, tratem de saber que as cigarras se modernizaram, mudaram com o tempo. E assim eu sou uma cigarra trabalhadeira. Acordo cedo, passo oito horas no emprego de segunda a sexta, estudo à noite e mantenho a casa em ordem. Temos mesmo que cantar e dançar. Porque virar uma formiga rabujenta, ninguém merece.

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