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Postagens

vê o que se quer

Na entrada da empresa, encontrei o João, que ainda não sabia que eu não trabalhava mais lá. Estava chovendo. Eu estava com uma blusa vermelha que talvez combinasse com o meu guarda-chuva bordô. E ele disse: “Nossa, como você está irradiante!” Lá dentro, os que já sabiam da notícia me olhavam em silêncio. Fico imaginando o que pensavam ao me ver: “Olha só a cara dela, que tristinha”. É incrível como as pessoas vêem o que querem ver.

arquivo-morto

Na minha última semana de trabalho fui até o arquivo-morto da empresa procurar um documento que havia sido perdido. É um lugar esquecido, talvez poucos funcionários o conheçam. Para chegar lá, é preciso passar por um corredor com várias portas, que geralmente está com todas as luzes apagadas. Então se sobe uma escada de madeira improvisada, sem corrimão, e chega-se no teto do prédio. Lá de cima há uma bela vista da gráfica, das máquinas funcionando, das pilhas de livros e dos funcionários, que nem sequer imaginam que você está lá em cima. Fiquei parte da tarde naquele lugar meio escuro, empoeirado, junto a lâmpadas quebradas e caixas de vários departamentos. Eu e o silêncio. Às vezes cantava, revirando aquelas pilhas de documentos esquecidos. Ninguém lembrava deles, que um dia foram descartados, ninguém lembrava do arquivo-morto que os abrigava, naquele momento ninguém devia lembrar de mim, misturada à poeira e às caixas velhas. E eu já estava mais próxima do arquivo-morto do que del...

currículo paulistano

No ano passado cheguei em São Paulo dois dias depois do aniversário da cidade. Peguei apenas os resquícios da festa dos 450 anos. Foi este, então, o primeiro aniversário de São Paulo que acompanhei de perto, e bem de perto por sinal, pois moro a duas ruas da Avenida Paulista, onde acontece uma grande festa. Saí de casa e vi apenas uma pequena alteração no movimento da região. Algumas barracas de cachorro-quente instaladas nas esquinas, pessoas chegando para o evento e a rota de ônibus desviada: todos passando em frente à minha casa. O céu cinza, nublado. Entrei no Center 3: movimento normal. “Ué? Cadê a muvuca, a multidão, a confusão, que nem eu vejo na TV? Já sei: quando chegar na Paulista, vou levar um susto, não vai dar nem para andar!” Fui pela Augusta e quando vi a Paulista: deserta! Percebi que o show era mais distante, lá pela altura do Trianon-Masp. (Que coincidência: no momento em que escrevo toca Adoniram – “Arnesto nos convidou”, Iracema e As mariposa) E não dava para ...

novo quadro

estou criando um novo quadro para o meu blog. Não sei ainda se vai rolar. É o "eu tive coragem" e "eu não tive coragem". Pelo menos uma participação ele já tem. É esta: "Eu não tive coragem de comer Yakisoba de rua"

programa de jóias

Especialistas aconselham não dormir com a televisão ligada, mas para quem gosta da tecla sleep, dou o meu conselho. Depois que comprei um aparelho para o meu apartamento, descobri um ótimo sonífero. São os programas noturnos que vendem jóias. A imagem é quase sempre a mesma: a mão, as orelhas ou o colo de uma mulher. O que varia é a joia que enfeita (ou não) estas partes do corpo desta mulher ou mulheres não identificadas. Muitas nem são bonitas, mas é bom dormir olhando para ouro, brilhantes, esmeraldas e outras coisas do gênero. Relaxante.

gíria

Agora pouco vi um cara falar com outro algo do tipo: "Ainda não tenho seu telefone, cabeção". No momento achei normal, mas depois pensei que se nunca tivesse ouvido esta gíria antes, iria estranhar muito. Realmente, da primeira vez que ouvi, estranhei. A imagem de uma pessoa com uma cabeça bem maior do que o normal é esquisita, e é isso o que imaginei nas primeiras vezes em que ouvi esta palavra. Mas agora, acho que estou me acostumando e "cabeção" daqui a pouco terá mesmo efeito de "cara", "meu" e de outras mais restritas como "mano", malandro", "campeão", "simpatia", etc.

ela merece

Em frente a uma favela isolada na marginal Tietê um imenso outdoor, como se fosse a voz dos moradores: a foto de uma menina sorridente segurando um cartaz: "Marta, ela merece ficar" Será que não foi uma idéia infeliz colocar o outdoor justo naquele lugar? Não é nada contra a Marta, mas facilmente alguém pensaria: "Mas por que ela merece ficar? Por causa desta favela? Por que aqueles moradores estão satisfeitos com toda aquela pobreza? Não entendi.

polícia e perfume

Estes dias vi na Paulista uma policial parada em frente a um vendedor ambulante. De imediato pensei que estava fiscalizando. Mas não. Estava mesmo interessada no produto. Eram perfumes. Provavelmente imitações. Achei estranho, pois sempre imaginei as policiais pessoas tão machas, tão machas, que seriam incapazes de se interessar por um perfume. Curiosidade: Ontem vi perto da estação da Luz uma mulher na rua vendendo perfumes em frascos embalados em bandejas de isopor e filme plástico, como presunto.

apito

Com esta mudança da empresa, sinto-me cada vez mais uma operária. Como trabalho uma hora a menos do que a maioria dos meus colegas, saio junto com o pessoal da gráfica. Pego o ônibus fretado, no qual tem uma média de 40 homens para 3 mulheres, diferente da turma da vinda, predominantemente feminina e jovem. Na ida, toca algo como Kid Abelha e Djavan. Na volta ouço música sertaneja e gracinhas masculinas. Tem um cara que insiste todo dia em abrir a janela e sempre tem um desavisado atrás que vai tomando vento e passando frio até todos reclamarem para que se feche o vidro. Este pessoal chega às 7h da manhã na empresa e acorda lá pelas 5h ou muito antes. Eu não acordo tão cedo assim, mas bato ponto, pego ônibus fretado e trabalho ao lado de indústrias como Bunge Alimentos e Roche, e às 17h, quando saio para pegar a condução, ouço um apito na gráfica e observo os funcionários se encaminharem para o vestiário. Então, sozinha, esperando-os chegar, lembro daquela música: "Quando o ap...

mendigos 3

Os mendigos do Brás rendem muitos textos. Faz tempo que não os vejo. E isto é estranho, pois encontrava-os todos os dias sempre no mesmo lugar. Vocês que leram meus posts antigos já devem imaginar minhas desconfianças. (As notícias sobre assassinatos de moradores de rua.) Pelo que lembro, da última vez que os vi, tinham visita. Na calçada, desta vez, havia três sofás e a visita dormia em um deles. Será que os sofás vieram de uma das várias lojas de móveis da Celso Garcia? Não, acho que não. Eram muito velhos. Pois é, não encontrei mais os moradores da calçada do Brás. Espero que estejam bem. De agora em diante, dificilmente tornarei a vê-los, pois não trabalho mais lá. Nesta segunda iniciei o trabalho em outra sede. Da minha mesa, vejo a rua, e isto é muito bom. Posso ver os caras da borracharia trabalhando , as crianças brincando e os carros passando.

no alfaiate

Durante as férias, quando o ócio começa a tomar conta de mim, começo a ter idéias, como transformar uma calça velha em bermuda, etc. Então resolvi passar no alfaiate do meu pai. Expliquei para ele, mostrei o comprimento, onde seriam feitas as barras, e ele falou: "Pequenininho, né?" Não entendi e dei uma risada sem graça, fingindo que entendia. Depois que deixei o lugar, tive um estalo. Entrei no carro rindo e contei o episódio para o meu pai, que estava me esperando. Entre as risadas, meu pai falava: "Ele imaginou um homenzinho, hahaha".

aos visitantes

Caros visitantes, desculpem-me pelos dias sem escrever, mas é que não tive muito tempo para pensar em posts nos últimos dias. Não sei se preciso de mais tempo com os outros ou de mais tempo comigo mesma para ter novas idéias.

pontos finalíssimos

Quando pequena, tive uma fase em que não podia deixar nenhuma falha de caneta no ponto final. Ele tinha de ser totalmente redondo, completo e maciço. Era realmente chato ter que se preocupar com cada um deles, mas tinha medo de que as palavras fugissem da frase.

necessidades inventadas

Já discuti com várias colegas que teimam em acreditar que fazer unha ou se depilar é uma necessidade feminina. Algumas usam o argumento de que é um hábito de higiene, outras chegam a se justificar dizendo que os pelos das pernas incomodam e é praticamente impossível conviver com eles. Nada disso me convence. Daria mais razão a alguém que dissesse que a maior necessidade de cultivar estes hábitos é a vaidade, uma questão estética ou a cobrança da sociedade e a falta de coragem de se impor à ela. Reconheço que é difícil para uma mulher brasileira usar uma regata quando não depilou as axilas. Conheço meninas que já fizeram isto e viraram alvo de riso para os homens e de crítica para as mulheres. Mas amigas, não me venham dizer que vocês precisam se depilar ou fazer as unhas, por favor. É tão difícil assim assumir que vocês fazem isto porque gostam, porque se sentem mais bonitas ou porque não conseguem ignorar o preconceito dos outros?

orkut 2

(visto de um dos ângulos) Agora os fazendeiros estão fazendo o rastreamento de sua boiada, uma exigência do governo para a exportação. Os seres humanos também gostam de fazer parte de um sistema de rastreamento. Um deles para mim, é um orkut. Mas isso, eles fazem por conta própria. "Sou como rês (...) desta multidão boiada, caminhando a esmo" Me perguntaram: Você conversa com estas pessoas da sua lista do orkut? Respondi: Praticamente não. É como uma carteira onde você guarda as fotos dos seus amigos.

não, não é papo de sapata

Dentre as belezas femininas estampadas nas ruas, em fotos, capas de revistas ou outdoors, uma tem me chamado a atenção há cerca de um mês. De dentro do ônibus, a vejo durante a ida e a volta do trabalho. Na ida ela está em um outdoor da Augusta, e na volta, em um ponto de ônibus da praça da República. É a moça que faz a propaganda para o novo shampoo Seda Guaraná Active. Ela tem um rosto muito bonito. Será que só eu reparei nisto? obs- Acho que os homens já devem ter percebido que as mulheres, além de reparar na beleza dos homens, também reparam na beleza das mulheres, às vezes até com mais intensidade, atenção e precisão. São suas amigas, mas também concorrentes.