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Postagens

celofanes e purpurinas

Durante a minha infância ouvi, não lembro se de uma peça de teatro infantil, se de um filme ou de uma criança curiosa, que os fantasmas quando morriam viravam papel celofane. Lembrei disto hoje, quando procurava papel para enfeitar uma cesta de doces para a festa junina. Pensei a princípio, enfeitá-la com celofane vermelho, mas acabei optando pelos papéis de seda, que podiam ser vendidos avulsos. Na loja, havia celofanes de várias cores e os transparentes eram um pouco mais baratos. Mas os rolos com várias folhas eram mais opacos. Não tinham a transparência, a delicadeza e a fineza de uma folha sozinha, solta ao vento. Às vezes tenho a impressão que são como aquelas gelatinas sem sabor em lâminas, que ao contato com qualquer água morna, dissolvem-se. E penso, quantos fantasminhas plufts, gasparzinhos e camaradas não estão hoje nas papelarias e lojas de artigos para festas? Esperando para enfeitar aniversários infantis, festas juninas, beneficentes e escolares. Fazendo companhia a eles,...

e uma boa hora para o senhor também

Na empresa, atendi o telefone. Ajudei um senhor a resolver o seu problema, e ele, agradecido, disse-me na despedida: “Que a Nossa Senhora do Bom Parto lhe dê uma boa hora. Realmente, eu precisava de boas horas naquele trabalho. Achei muito interessante este modo de enxergar as coisas. Ao invés de se falar “uma boa tarde”, ou “um bom dia”, se falaria “uma boa hora”. Agora porque justo a Nossa Senhora do Bom Parto foi escolhida para cumprir esta função, e não um Nossa Senhora qualquer, eu não sei. Educadamente, retribuí a cortesia: “Para o senhor também”. E ele respondeu: “Ei, para mim não”.

horário de almoço na Paulista

Era horário de almoço. Um bando de grandes homens engravatados, todos de terno em variados tons de cinza na calçada, vindo em minha direção. Entramos no mesmo local: um pequeno shopping na Avenida Paulista. Eu continuei andando pelos corredores, mas o grupo parou, como num consenso. Uma mulher que cruzava o meu caminho, olhava para a grande reunião de homens de terno e falou ao seu companheiro: “Eles gostam de brincar!”. Olhei para trás: estavam todos amontoados olhando atenciosamente para uma vitrine. Atrás dos vidros, dois cachorrinhos filhotes, branquinhos e fofinhos, brincavam um com o outro.

era quase meia-noite de sábado

Uma matéria sobre uma pesquisadora de blogs saiu no jornal da Unicamp desta semana. O início do texto me chamou atenção. Ficou gravado fortemente na minha memória. Era um trecho de um post de uma moça de 23 anos. Há poucos dias fiz 24, portanto a minha identificação com a menina foi grande. E principalmente com o tema , que apesar de se tratar de uma situação dela, com algumas variações, imaginei que poderia muito bem ser minha também. Ela falava mais ou menos assim com o leitor: "Veja a gravidade da minha situação. Tenho 23 anos. É quase meia-noite de sábado e eu estou costurando os buracos da minha calcinha". Bem, sexta-feira à noite, eu com meus recém-inaugurados 24 anos, estava em um bar, transbordando cerveja e provavelmente falando besteira. Porém 24 horas mais tarde estaria em casa, sozinha, estudando. Lembrei que havia deixado algo na máquina de lavar. Resolvi pendurar. Sim, era quase meia noite de sábado e eu estava pendurando minhas calcinhas no varal. Mera coincidê...

meus posts no divã

Coloquei alguns dos meus posts na terapia. Gasto uma nota preta por mês por causa disso. Mas os mais rebeldinhos estavam me dando muito trabalho. Deixavam escapar minhas inseguranças, meus receios e minhas causas mal resolvidas. Agora toda semana, estiram suas perninhas no divã, e naquele ambiente a meia-luz, distraem-se olhando para os seus sapatos e para a parede, dizendo malcriações para o analista. E os safados ainda tem a coragem de me culpar pelos seus defeitos. Haja paciência!

lamento

Fazer uma segunda faculdade nos permite observar muitas coisas que seriam praticamente impossíveis de serem notadas quando éramos apenas calourinhos.Tantas coisas se repetem! Nas lotadas salas do curso de Letras identifico aqueles famosos tipos de alunos da minha antiga turma do jornalismo. Claro, cada qual com suas peculiaridades. Mas sempre presentes, talvez em todas as turmas de todos os cursos, neste ano, nos anos passados, no ano que vem, no próximo e no próximo... Mas há uma coisa que se houvesse percebido no meu primeiro ano de faculdade, ah... quanta diferença faria! Depois de dois meses freqüentando as aulas percebi que estudo com muitos colegas de 17 ou 18 anos. Que fazem perguntas, que fazem provas, trabalhos e riem das piadinhas dos professores. Alguns, nos trabalhos em grupo, editam e corrigem os textos e as idéias dos participantes com ar de doutores recém saídos do terceirão ou do cursinho. Fazem perguntas óbvias aos professores como quem acaba de descobrir uma grandiosa...

esta contagem já está me chateando

Olha, cansei de perseguir os "além de" (ou será que são eles que me perseguem?) Vou registrar mais estas duas ocorrências e espero não registrar mais, pois já cansei desta brincadeira. O Estado de S. Paulo, 01/06/2005 - Caderno 2- Muito além de 'A Escrava Isaura' O Estado de S. Paulo, 02/06/2005 - Caderno 2- Muito além das mesas-redondas de futebol Creio que agora já devo ter convencido o leitor mais incrédulo de que o meu post vamos contar comigo tem fundamento. Agora quero encerrar esta contagem. Porém, não sei se vou resistir.

a crítica e a carapuça

No programa Provocações da TV Cultura, Antônio Abujamra entrevistava uma jovem escritora. No final, pediu para que ela olhasse para a câmera e falasse tudo o que tinha vontade. A moça, então, começou, com voz de revolta: “Críticos, vocês são apenas críticos!” Sim, concordo com ela. Mas se são apenas críticos, por que ela gastou com eles o espaço onde poderia falar “tudo o que tinha vontade e nunca teve chance de dizer”? Pelo jeito não são tão insignificantes assim na vida dela. Ela sequer conseguiu ignorá-los. Imagino que seja muito difícil mesmo ignorá-los, apesar de serem "apenas críticos". Muita gente diz menosprezá-los, escorraça-os, mas ao mesmo tempo gasta tempo, voz e textos e textos falando deles. Não posso dizer que as críticas não me afetam. Eu mesma tenho pescado algumas em textos e posts alheios, mesmo que não tenham sido feitas para mim. Acho que a carapuça serve às vezes. Vejo que o mais louco é que a mesma pessoa que malha os críticos, faz o papel de crítica...

o orkut e os aniversários

Sempre me gabei por ter uma memória prodigiosa para os aniversários de amigos, parentes e conhecidos. Costumo, por exemplo, avisar as pessoas do aniversário de seus afilhados ou dos filhas de seus funcionários. Sempre fiz parte do grupo das amigas queridas, aquelas poucas que lembram todos os anos do seu aniversário e fazem questão de te ligar para dar os parabéns. Porém, este grupo seleto foi invadido. Lembrar dos aniversários já não é mérito nenhum. Hoje o orkut faz esta tarefa para nós. E eu, mesmo não precisando dos tais lembretes, sou uma entre os 50, 100, ou entre o tanto de pessoas que o aniversariante tenha em sua lista de contatos. Hoje, em vez do aniversariante receber algumas ligações das pessoas que realmente costumam lembrar de seu aniversário, ele recebe uma chuva de mensagens apressadas e repetitivas na seção de scraps. Até aquele amigo do amigo do amigo aparece lá, desejando-lhe um “ótimo dia”, um “feliz aniversário” ou um “parabéns”. Já é possível saber se a pessoa fez...

passeio de ônibus

O ônibus freia. O corpo vai para frente e vai para trás. Volta a andar. Freia. O corpo vai para frente. Uma pausa. Vai para trás. Novamente em movimento. Um semáforo. Todos para a frente. Pausa. Expectativa. "Ué, não vai voltar para trás?" Aflição. "Se não voltar, vou ter um treco!" E o corpo vai novamante para trás. E assim, o ônibus continua em movimento.

alguém contando

Era daquelas adolescentes frescas e lindas. Cabelo comprido, liso, castanho claro. Vestia camiseta branca de uniforme. Sentada largadadamente no banco de trás de um carro grande e caro, distraia-se com suas unhas. O carro estava em uma cara avenida de São Paulo, parado no trânsito, no meio da tarde, horário em que alguns privilegiados têm a chance de rodar pelas ruas, atrás de seus compromissos fúteis e agradáveis. Outros rodam a trabalho, outros resolvem problemas, outros procuram emprego, ou vão à aula, outros encontram-se em situações desconfortáveis. E a menina olhava as unhas. Seu pensamento passeava e rodopiava dentro de sua mente. De repente levantou o braço direto. Esqueceu as unhas. Levou o nariz ao sovaco. Deu uma profunda cheirada. Depois de tudo checado, descansou o olhar na paisagem.

morar sozinha é...

dar risada alto e estanhar o próprio riso suspirar alto e estranhar o próprio suspiro gritar, rompendo o silêncio, e se assustar com o próprio grito sentir o cheiro da pipoca do vizinho e fazer uma panelada só para você (não vale de microondas) abrir uma garrafa de vinho inteira e tomar toda noite até que ele vire vinagre na geladeira usar este vinagre para temperar salada (bem, aí já é imaginação) ter sossego para imaginar cenas deprês como estas

vamos contar comigo?

Não tenho cara para criticar o trabalho dos jornalistas. Fazer reportagem não é fácil. É preciso tirar a bunda da cadeira e ir atrás da notícia, procurar as melhores fontes, lidar com gente mal humorada, grossa ou que nunca tem tempo. E além disso, sentir o desespero quando o prazo está acabando e a entrevista com a fonte principal ainda não deu certo. Diante de tanta pressão e esforço para sobreviver no emprego é possível entender porque aqueles mais fracos são capazes de atitudes tão baixas e tentam compensar a sua grande insegurança com comportamentos egocêntricos ou com uma competitividade excessiva. Mas não é sobre isso que queria falar. Lembro-me de um texto que fiz há alguns anos quando era ainda uma estudante de jornalismo. Uma entrevista com o dono de um bistrô pouco conhecido localizado ao lado de uma conceituada pizzaria de Florianópolis. Praticamente todo o movimento de carros e pessoas no local se dirigia à pizzaria. Portanto, coloquei na matéria o seguinte título: “M...

e se falassem tudo o que pensassem?

Ela viu a outra segurando a sacola da Betty Boop e não conseguiu mais tirar os olhos. Ela gostava da Betty, parecia com a personagem quando era criança; não pela sexualidade, mas sim porque era magrinha e tinha um cabeção. A outra perguntava-se: “Por que esta menina me olha tanto? Estou ficando incomodada”. E ela pensava: “Nossa, a moça deve estar estranhando eu olhá-la tanto assim. Mas que droga! Não estou olhando para ela, mas para a sacola. Onde será que arranjou?” Quando a outra mirava o olhar para a sua direção, ela virava a cabeça para disfarçar. Continuaram nesta situação desconfortável até o ônibus chegar. Imagino como seria se tivessem falado uma para a outra os seus pensamentos. Acho que teriam esclarecido tudo e saído aliviadas. Mas não se conheciam e não tinham o hábito de falar o que dá na telha para desconhecidos. Além disso, são apenas detalhes de uma breve passagem do cotidiano. Agora deixemos nossas personagens em paz, pois em alguns segundos esquecerão este incômodo, ...

o corvo na cidade

Estes dias admirei um documentário transmitido pela TV Cultura. Era um tipo de matéria que gostaria de ter feito se trabalhasse neste ramo. Mostrava como os animais silvestres se adaptam à vida das grandes cidades e usam o tráfego e os códigos urbanos a seu favor. O primeiro exemplo foi de um corvo que tinha uma noz no bico. Como fazer para quebrá-la? Era muito dura. Por isso, ele deixou a noz no meio da avenida e do fio de energia ficou observando-a. Os carros, em alta velocidade, passaram por cima da noz e quebraram-na. Então, o corvo desceu para pegá-la, mas percebeu que corria perigo no meio do trânsito intenso. Voltou, então, ao seu fio e esperou o sinal fechar. Agora, sim! O pássaro pôde comer tranqüilamente no meio da avenida.

duas passantes e um passante

Por que observo tantas coisas do ônibus? É claro! Não tenho a preocupação de dirigir, portanto, posso ficar com a cara encostada na janela olhando calmamente o que se passa lá fora. Nesta semana, duas passantes me chamaram a atenção. Talvez porque ambas estivessem de calça e sapatos pretos, diferenciando-se entre si apenas pela cor das blusas e dos cabelos: a loira vestia blusa laranja e a morena, azul. Além do mais, a calçada estava vazia e as duas passeavam de braços dados. Não pareciam lésbicas e sim, amigas queridas. Eis que um homem vem em direção às duas; passa por elas e as olha. Assim que elas ficam para trás, ele dá mais uns dois passos e vira a cabeça para trás, mirando sem hesitar na bunda das moças. Distraídas, provavelmente elas nem imaginam que as suas traseiras estavam sendo examinadas. Já vi este tipo de cena várias vezes, em diferentes cidades, geralmente do ônibus. Parece ser mais forte que eles. É como se ao ver a frente de uma mulher interessante, um ímã puxasse a ...

bebê seguro de si

Em seu carrinho confortável, escuro, estava protegido de quase toda a agitação do metrô. Assistia a tudo, como se estivesse em uma redoma, àquelas pessoas grandes, sentadas ou em pé com a aparência cansada, apática. Mas desprezava os sentimentos alheios, apenas olhava. Na verdade, estava mais entretido com seus pezinhos, os quais ele insistia em manter para o alto, apoiados na mesinha de refeições do carrinho. O fato de ser muitas vezes menor do que os outros ao redor não o intimidava. Estava seguro e tranqüilo na sua posição de bebê, curtindo sossegadamente o seu nada a fazer, assessorado por seus pais, sempre ao seu dispor. Mirei em um de seus olhinhos, brilhantes. Quis chamar a sua atenção, como fazemos geralmente com os bebês. Acho que me olhou durante algum tempo, mas sem nenhuma surpresa, sem nenhum sorriso. Com suas calças verde-água de algodão macio e um paninho fresquinho e branquinho deixado suavemente em cima de sua barriga, era como se estivesse há uns 30 anos no mundo. Car...

nas calçadas

Ele dorme na calçada. Sempre está na calçada, às vezes está do outro lado da rua. Em alguns dias, fala alto, afobado, palavras sem sentido, ininteligíveis; em alguns dias, está em silêncio ou dormindo; dia desses cantou um trecho de um pagode de dez anos atrás. Foi a primeira e única vez que entendi suas palavras. Brinca com latinhas e água de sarjeta. Lava o rosto e as mãos com água da sarjeta. Nunca o vi com uma roupa diferente da sua calça preta e blusa preta. Será que são pretas mesmo? Será que são únicas ou várias idênticas? Há poucos dias, descobri que à noite fica na rua ao lado. Uma vez, com um copo na mão, outra conversando com outro cara (a primeira vez que o vi conversando) em frente à Lanchonete Angolana.