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vamos contar comigo?

Não tenho cara para criticar o trabalho dos jornalistas. Fazer reportagem não é fácil. É preciso tirar a bunda da cadeira e ir atrás da notícia, procurar as melhores fontes, lidar com gente mal humorada, grossa ou que nunca tem tempo. E além disso, sentir o desespero quando o prazo está acabando e a entrevista com a fonte principal ainda não deu certo. Diante de tanta pressão e esforço para sobreviver no emprego é possível entender porque aqueles mais fracos são capazes de atitudes tão baixas e tentam compensar a sua grande insegurança com comportamentos egocêntricos ou com uma competitividade excessiva. Mas não é sobre isso que queria falar. Lembro-me de um texto que fiz há alguns anos quando era ainda uma estudante de jornalismo. Uma entrevista com o dono de um bistrô pouco conhecido localizado ao lado de uma conceituada pizzaria de Florianópolis. Praticamente todo o movimento de carros e pessoas no local se dirigia à pizzaria. Portanto, coloquei na matéria o seguinte título: “M...

e se falassem tudo o que pensassem?

Ela viu a outra segurando a sacola da Betty Boop e não conseguiu mais tirar os olhos. Ela gostava da Betty, parecia com a personagem quando era criança; não pela sexualidade, mas sim porque era magrinha e tinha um cabeção. A outra perguntava-se: “Por que esta menina me olha tanto? Estou ficando incomodada”. E ela pensava: “Nossa, a moça deve estar estranhando eu olhá-la tanto assim. Mas que droga! Não estou olhando para ela, mas para a sacola. Onde será que arranjou?” Quando a outra mirava o olhar para a sua direção, ela virava a cabeça para disfarçar. Continuaram nesta situação desconfortável até o ônibus chegar. Imagino como seria se tivessem falado uma para a outra os seus pensamentos. Acho que teriam esclarecido tudo e saído aliviadas. Mas não se conheciam e não tinham o hábito de falar o que dá na telha para desconhecidos. Além disso, são apenas detalhes de uma breve passagem do cotidiano. Agora deixemos nossas personagens em paz, pois em alguns segundos esquecerão este incômodo, ...

o corvo na cidade

Estes dias admirei um documentário transmitido pela TV Cultura. Era um tipo de matéria que gostaria de ter feito se trabalhasse neste ramo. Mostrava como os animais silvestres se adaptam à vida das grandes cidades e usam o tráfego e os códigos urbanos a seu favor. O primeiro exemplo foi de um corvo que tinha uma noz no bico. Como fazer para quebrá-la? Era muito dura. Por isso, ele deixou a noz no meio da avenida e do fio de energia ficou observando-a. Os carros, em alta velocidade, passaram por cima da noz e quebraram-na. Então, o corvo desceu para pegá-la, mas percebeu que corria perigo no meio do trânsito intenso. Voltou, então, ao seu fio e esperou o sinal fechar. Agora, sim! O pássaro pôde comer tranqüilamente no meio da avenida.

duas passantes e um passante

Por que observo tantas coisas do ônibus? É claro! Não tenho a preocupação de dirigir, portanto, posso ficar com a cara encostada na janela olhando calmamente o que se passa lá fora. Nesta semana, duas passantes me chamaram a atenção. Talvez porque ambas estivessem de calça e sapatos pretos, diferenciando-se entre si apenas pela cor das blusas e dos cabelos: a loira vestia blusa laranja e a morena, azul. Além do mais, a calçada estava vazia e as duas passeavam de braços dados. Não pareciam lésbicas e sim, amigas queridas. Eis que um homem vem em direção às duas; passa por elas e as olha. Assim que elas ficam para trás, ele dá mais uns dois passos e vira a cabeça para trás, mirando sem hesitar na bunda das moças. Distraídas, provavelmente elas nem imaginam que as suas traseiras estavam sendo examinadas. Já vi este tipo de cena várias vezes, em diferentes cidades, geralmente do ônibus. Parece ser mais forte que eles. É como se ao ver a frente de uma mulher interessante, um ímã puxasse a ...

bebê seguro de si

Em seu carrinho confortável, escuro, estava protegido de quase toda a agitação do metrô. Assistia a tudo, como se estivesse em uma redoma, àquelas pessoas grandes, sentadas ou em pé com a aparência cansada, apática. Mas desprezava os sentimentos alheios, apenas olhava. Na verdade, estava mais entretido com seus pezinhos, os quais ele insistia em manter para o alto, apoiados na mesinha de refeições do carrinho. O fato de ser muitas vezes menor do que os outros ao redor não o intimidava. Estava seguro e tranqüilo na sua posição de bebê, curtindo sossegadamente o seu nada a fazer, assessorado por seus pais, sempre ao seu dispor. Mirei em um de seus olhinhos, brilhantes. Quis chamar a sua atenção, como fazemos geralmente com os bebês. Acho que me olhou durante algum tempo, mas sem nenhuma surpresa, sem nenhum sorriso. Com suas calças verde-água de algodão macio e um paninho fresquinho e branquinho deixado suavemente em cima de sua barriga, era como se estivesse há uns 30 anos no mundo. Car...

nas calçadas

Ele dorme na calçada. Sempre está na calçada, às vezes está do outro lado da rua. Em alguns dias, fala alto, afobado, palavras sem sentido, ininteligíveis; em alguns dias, está em silêncio ou dormindo; dia desses cantou um trecho de um pagode de dez anos atrás. Foi a primeira e única vez que entendi suas palavras. Brinca com latinhas e água de sarjeta. Lava o rosto e as mãos com água da sarjeta. Nunca o vi com uma roupa diferente da sua calça preta e blusa preta. Será que são pretas mesmo? Será que são únicas ou várias idênticas? Há poucos dias, descobri que à noite fica na rua ao lado. Uma vez, com um copo na mão, outra conversando com outro cara (a primeira vez que o vi conversando) em frente à Lanchonete Angolana.

anúncios irritantes

Estes dias, do ônibus, vi um anúncio bem grande no alto de um edifício - “VISA / Porque a vida é agora” - e percebi algo: como odeio estes tipos de anúncio. Lembrei de outro que era obrigada a ler em Florianópolis toda vez que ia ao centro da cidade: “Porque escola é Solução”. Dentre os detestáveis também estão os do tipo: “É gripe? Benegripe” ou “Cabelos Brancos? Não os tenha. Loção Nova”. Caramba! Além de eu não ter perguntado nada, eles me socam a resposta! Goela adentro! Vou vomitar.

rio

As crianças de São Paulo convivem, desde cedo, com um rio que fede. Para elas, isto deve ser natural. Passam pelo rio com grande indiferença, ignorando seu cheiro, sua cor e o fato de que ele já foi limpo e cristalino um dia. Já passaram por ele muitas vezes e sabem que vão passar no dia seguinte. Estranhamento diário é besteira, além do mais, quando elas nasceram, ele já era assim. Observo agora umas crianças de uma pequena cidade do interior dentro de um carro, chegando na capital a passeio. É uma tarde quente e ensolarada e os vidros estão abertos. Sabem que vão contornar o famoso rio que fede e isso causa grande alvoroço no veículo. O rio é um grande ponto turístico e, para enaltecê-lo, elas não fazem por menos: com gestos exagerados fecham os vidros rapidamente, tapam os narizes, prendem a respiração e simulam uma sensação de sufoco. Agitadas e com olhares deslumbrados dizem: “Eca!”

caríssimos leitores, obrigada

Leitor(a), gosto de você. Não te conheço, mas você me lê. E este é um forte motivo para eu gostar de você. Por sua causa, este blog não é uma ilha com apenas um habitante. E olha que por muito tempo eu pensei que era. Mas eu descobri que você me lê e por isso eu fico feliz.

para quem leu as janelas e seus donos

Hoje, quando acordei, olhei distraidamente pela janela do quarto e ... "o que vejo na janela em frente?" A lata de Nescau sumiu, e em seu lugar apareceu uma lata de cerveja! (ainda não consegui identificar a marca). Deve estar cheia, como a minha de molho de tomate, pois uma lata vazia dificilmente agüentaria o peso da janela. Mas o que é isso? Uma competição. Agora, terei que aparecer amanhã com uma lata de óleo de soja? Quem sabe uma lata de aspargos ou de corações de alcachofra?

"dolly, dolly guaraná, dolly...

...Dolly guaraná... (vai baixando o volume) o sabor brasileiro (pianíssimo)" Não é difícil decorar o jingle que agora passa no intervalo comercial da TV Cultura. E a versão Páscoa que deram à propaganda é tenebrosa. Em uma imitação pífia dos bichinhos Parmalat, a música é cantada por um grupo de crianças que deveriam parecer coelhos, mas devido à maquiagem mal feita, parecem mais monstrinhos da floresta. É uma pena, pois elas devem ser bonitinhas. Mas monstrificaram as crianças.

ninguém está livre do erro

Justo hoje que ia falar de uma bola fora do Paulo Henrique Amorim, percebi que cometi um erro em um dos meus posts. Bem, mas como todos erram, vou lembrar mesmo assim da gafe do Amorim, que por sinal tem muito em comum com a minha. Em seu programa da tarde, uma repórter dava as últimas notícias do caso da família envenenada em Campinas. A polícia acabara de encontrar o diário da menina sobrevivente. O programa mostrava as imagens das páginas mais reveladoras, e uma delas tinha uma grande foto. "Amorim então explicou: aqui está uma foto da menina". Só que qualquer telespectador poderia perceber que a foto, que ocupava a página inteira do diário, era da não pouco conhecida cantora Sandy. A repórter tentou consertar: "é uma ídola da menina", mas a matéria continuou.

falha

Estou envergonhada. Disse ontem que os versos citados no post versinhos emprestados eram do Wando. Mas hoje uma dúvida veio me cutucar e resolvi pesquisar. Desculpem-me, eles são de um cantor chamado Agepê. Farei as correções imdediatamente.

junta de ídolos

Dias atrás vi na Paulista, sob pleno sol escaldante, uma fila enorme. Tive que andar muito para descobrir onde era o começo e o fim. Ela dobrava a Augusta e se concentrava na saída de um estacionamento. Ao redor da fila, vendedores ambulantes vendiam fitas coloridas para amarrar na cabeça com os mais diversos nomes, como Rouge, Zezé de Camargo e Luciano, Daniel etc. Perguntei a umas meninas: “pra que é a fila?” Responderam impacientes, como se eu fosse a única que não soubesse: “pra rádio”. Não entendi. Lembrei que fãs se reúnem em frente de hotéis para esperar seus ídolos. Insisti: “no hotel?” Acho que ficaram nervosas por eu perguntar o que para elas era o óbvio. Resolvi tentar com outra pessoa. Pensei: “será que é emprego para rádio? Será que tem tanta gente querendo trabalhar na rádio?” Mas logo vi crianças e bebês e imaginei que o motivo da aglomeração era outro. Uma mulher, então, deu-me uma resposta mais completa: naquele momento havia vários artistas de TV reunidos na rádio. Nã...

versinhos emprestados

Certo dia ouvi em um programa humorístico de rádio um momento de poesia: os integrantes colocaram uma música brega e começaram a recitar versinhos. Um deles me chamou a atenção e me fez realmente considerar um possível talento dos rapazes para o humor: “Quero te pegar no colo te deitar no solo e te fazer mulher” “Hahaha, deitar no solo é boa! Para rimar com colo! Hahaha, muito bom!”, ri e pensei. Mas que ignorância a minha! Dias depois, ouvindo uma outra emissora, descobri que o trecho fazia parte de uma música de um cantor chamado Agepê.

felino no parque

Em uma manhã, no parque Trianon, dois senhores conversavam sentados em um banco. Entretidos no bate-papo ignoravam o banco em frente. A surpresa inicial já passara, provavelmente. O banco da frente chamava a atenção de quem passava. Nele, estava dormindo um homem, meio magro e não muito grande. Ele estava vestido com um macacão colante, com estampa de oncinha muito real, que cobria os braços e as pernas. Na cabeça, uma tiara dourada, bonita, como de princesa. Entre as sombras das árvores, o frescor da manhã e o vasto verde do parque, o homem parecia um felino descansando em seu habitat natural.

sapato na encruzilhada

Em uma longa viagem, de Florianópolis ao estado de São Paulo, o ônibus chegava à cidade de Curitiba. Na estrada, sinais de civilização, como algumas casas de periferia e estabelecimentos, ainda se misturavam com a paisagem natural da mata. Da janela, avistei um sapato vermelho de salto alto em uma encruzilhada. Este episódio aconteceu há anos, mas até hoje fico imaginando como este pé de sapato feminino foi parar ali. Será que estava lá há muito tempo, ou tinha chegado lá na noite anterior ou naquela manhã mesmo? Foi arremessado, esquecido ou abandonando propositalmente? Quem foi sua dona, ou dono? Estava quebrado? Tantos podem ser os motivos, mas eu não sei qual é o verdadeiro, apenas posso imaginá-los e ficar com a poesia da cena e dividi-la com você. Isto me dá um consolo.