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Postagens

pão de mel

Naquela noite, a lua estava linda. Na noite seguinte, já não estaria tanto, pois o céu estaria nublado. Mesmo assim, não fiquei muito triste nesta noite seguinte, pois sabia que a lua estava lá, apesar de não conseguir vê-la. Cheguei em casa pensando em escrever sobre um breve momento de felicidade que tivera. Logo depois desisti. Tinha a impressão de que escrever sobre momentos de felicidade dava azar. Lembrei-me do texto da joaninha fiel, que me fez pensar que muitas vezes as pessoas estão por perto sem que a gente se toque. Só que tempos depois de ter escrito o texto, percebi que muitas vezes também a gente não se toca de que certas pessoas já não estão tão perto como gostaríamos. Talvez não seja questão de azar. Talvez a questão seja simplesmente o fato de que os momentos de felicidade não duram para sempre, assim como os de tristeza muitas vezes dão lugar a momentos de felicidade. Mas sei que naquele dia, o do céu nublado, tive uma vontade louca de comer um doce. À tarde, do traba...

os miseráveis

Domingo peguei um ônibus na Consolação em direção ao centro. Umas amigas me esperavam para uma peça de teatro gratuita em um teatro perto da Igreja da Consolação. Entrei no ônibus e só havia lugares no fundo. Na verdade, o fundo estaria quase vazio, se não fosse três adolescentes e um bebê. Um deles, quieto, estava só na última fileira e na frente dele, dois, sentados um ao lado do outro, conversavam. Uma menina e um menino que segurava o bebê. Reparei que o moço estava com os pés sujos e descalços. Sentei-me ao lado deles e pude ouvir trechos da conversa. Ela dizia: – Sim, minha filha ficava numa creche perto daquela favela. Mas você saiu daquela, foi para onde? – Minha mãe quis. [...] tava caindo... – Longe, né? Mas lá onde eu tô é tudo predinho. Agora é tudo predinho. Só que lá é bem nojento. Agora tá melhor. Prenderam o nojentão que mandava lá. De repente lembrei do nome da peça que iria ver: Os miseráveis. Não pude mais ouvir a conversa, pois avistei a Igreja, levantei-me e andei...

a joaninha fiel

Um dia ela apareceu no meu quarto e se instalou no meu criado-mudo improvisado. Era uma joaninha maior do que as que estava acostumada a ver. Verde, meio metálica, com pintinhas pretas. Imaginei que em poucas horas sairia voando pela janela, da mesma forma que suponho ter chegado no meu quarto, que fica no décimo primeiro andar. Mas para minha surpresa, na noite seguinte ela ainda estava lá. Surpreendi-me ao encontrá-la, de madrugada, encostadinha atrás do controle remoto, talvez tentando se proteger da luz da televisão. A partir daquela noite, declarei-a minha amiga. Seria uma companhia para as noites solitárias. Na outra noite, procurei- a atrás do celular, do controle remoto, do despertador, sem sucesso. Pensei: “desta vez ela foi embora”. Quebrei a cara novamente, quando percebi que ela estava grudada atrás do criado-mudo. Comecei a acreditar que não me abandonaria tão facilmente. Certo dia sumiu novamente. Não a encontrei nos lugares que habitualmente costumava ficar. Conformei-me...

assinatura

Sinto se te incomodo, leitor, mas as lembranças de infância continuam povoando a minha mente, e não me deixam. E penso que talvez será assim durante a minha vida. Aliás, acredito que os momentos da nossa infância sempre irão nos cutucar de vez em quando. Mas você pode, quem sabe, encontrar algo interessante na passagem que contarei a seguir. De repente, vi-me com duas opções: ou escrevia esta lembrança ou não escrevia nada, pois não conseguia me empolgar com outro assunto. Depois de muito tempo com a dúvida, optei por escrever. Brincava com a minha prima em um dos quartos vazios da casa de nossos avós. Eis que chegam nossos dois irmãos mais velhos, com folhas de papel e caneta na mão. Eles nos perguntaram se tínhamos uma assinatura. Nós, simples meninas de cinco anos, nem sabíamos direito o que era isso. Então, vimos naquele momento uma oportunidade de adquirir uma. A explicação era simples: “Faça um rabisco nesta folha, do jeito que vocês quiserem”. Mas havia uma ressalva: “quanto mai...

não gosto de despedidas

Ela tinha vindo da Bahia para Brasília e morava no meu apartamento. Joana era uma moça morena, tinha os cabelos pretos, lisos e compridos e só andava de saias rodadas que beiravam os joelhos. Cuidava de mim e do meu irmão. Contava histórias de sua terra, e falava de jerimum, e de outras coisas de lá. Leite para ela, era leite-de-coco. E eu ficava deslumbrada quando ela me falava que lá os pequis eram enormes, carnudos. Que maravilha seria poder comer daqueles, eu que estava acostumada a raspar com os dentes a escassa poupa dos pequis goianos, chegando quase a correr o risco de ter a língua tomada pelos espinhos de seu caroço. Lembro que ela assistia conosco ao Jornal Nacional e toda noite, no final do programa, respondia alto para para a TV: “Boa noite!” Um dia acordamos e Joana não estava em casa. Lembro que desci ao térreo com minha mãe, e o porteiro disse que tinha visto ela ir embora com suas coisas. Deixou uma carta. Eu ainda não sabia ler, mas lembro-me muito bem da enorme lista...

mendigos

O leitor que acompanha este blog deve ter perdido a conta de quantos posts meus falam de mendigos. Aos que se irritam com isto, sinto muito, mas não consigo me controlar. Pois é muito difícil passar por eles indiferente, ainda por cima porque muitas vezes estão fazendo coisas curiosas, como dar socos no ar ou falar coisas sem sentido. Toco neste assunto agora, pois foi justamente a minha observação em dois mendigos hoje de manhã que me levou a escrever o post abaixo.

mc dia feliz

Na Paulista, carros em fila com bexigas coloridas, bandas de música. Fuzuê. Na calçada, dois mendigos, um de frente para o outro, devorando seus big macs. De qualquer forma, espero que as crianças recebam o máximo de ajuda possível e possam ficar bem.

Marte mais brilhante

Vi em jornais, recebi por e-mails a notícia de que esta noite Marte estaria tão próximo da Terra como não ficava há 5 mil anos. E diante de previsões que cogitam a possibilidade de que evento parecido pode se repetir talvez só daqui a 60 mil anos, senti-me até no dever de não desperdiçar o fenômeno. Hoje, na despedida de um amigo, algum convidado chegou a lembrar no início da festa da notícia, mas depois de horas de cervejas, cachaças, cantorias, conversas e gritarias, tenho minhas dúvidas de que alguém se lembrava que Marte estava no céu, se é que alguém se lembrava que existia céu. Eu também haveria me esquecido, se quando chegasse em casa não tivesse ouvido antes de dormir uma música que falava sobre o brilho das estrelas e da lua. Então, conferi na agenda do meu micro (sim, eu anotei)o dia e o horário do acontecimento, e me toquei que o pico do evento havia acontecido poucos minutos atrás. Olhei então para o céu entre as persianas e enxerguei somente meu armário refletido na vidra...

bbb - barrigas, bebês e baboseiras

Às vezes fico tão envolvida com a idiodice ao meu redor e até com a minha própria, que esqueço que ela está em toda a parte do mundo. Mas ontem uma notinha no jornal fez questão de não me deixar esquecer. Fiquei sabendo que os holandeses, não contentes mais com o tradicional formato do Big Brother, criarão uma nova versão (talvez até porque as variantes com gordos, políticos e o diabo a quatro já estão ficando obsoletas). Agora a casa será ocupada apenas por mulheres grávidas, e que cumpram o requisito de estarem no sexto ou sétimo mês de gestação. Sim, pois a intenção é que as finalistas tenham o parto dentro da casa. Que maravilha...

aniversário

Não quis deixar de fazer esta observação: percebi hoje que meu blog completou um ano há pouco menos de um mês. 30 de julho. Fiz, então, uma visita por todos os posts já escritos. Durante esta longa viagem ao tempo, percebi que meus posts eram muito mais curtos. Hoje arrisco escrever uns maiores, para azar ou (quem sabé até...)sorte do leitor. Não tenho tendência a escrever textos longos ( é até um desafio para mim) e também acho que não dão muito certo para blogs. De qualquer forma penso assim: tudo bem, sejam longos, mas sejam interessantes! Um dia consigo esta proeza!

pés no chão

Depois do sucesso arrebatador de pontos finalíssimos (02/09/2004), que contou com a expressiva participação de 1 comentário, escrevo mais uma de minhas memórias de infância. Às vezes, quando anoto o número de um telefone ou um número qualquer perto de uma pessoa mais observadora, ela comenta: "Nossa, como você faz o três engraçado!" Ou se não: "Olha, você faz o oito diferente!". Sim, sei explicar o porquê. É porque tenho o costume de começar a fazer alguns dos números de baixo para cima. Daí esta sensação das pessoas de que algo está estranho. E imagino que esta minha prática vem de longos anos. Pois tenho ainda forte em minha memória uma cena da minha infância em que desci para o parquinho com minha mãe carregando papéis e lápis de cor. Lembro que sentei no chão, apoiei o papel em um banco de cimento e comecei a elaborar meus desenhos, como sempre fazia. Foi que surgiu uma chilena que morava em um dos apartamentos próximos e falou: - Que curioso! Ela começa a dese...

dentro da Lanchonete Angolana

À noite, de volta para casa, do ônibus, ela quase sempre vê na Augusta o mendigo que durante toda a tarde fica na rua ao lado, às vezes quieto, às vezes gritando coisas sem sentido e assustando quem passa. Sim, mas é incrível como que à noite, em frente à Lanchonete Angolana, ele parece ter de volta toda a sua socialidade, sempre com um copo na mão e de vez em quando conversando com alguém. Para ela, ele sempre parecera alguém incapaz de dialogar com quem quer que fosse. Um dia, depois de meses vendo a mesma cena, ela levantou-se antes do seu ponto. Meio hesitante, apertou o botão para parar. Por um momento se arrependeu, mas quando o ônibus parou, não havia ninguém mais para descer,e ela, meio sem jeito, saltou do ônibus. A Lanchonete Angolana estava do outro lado da rua. Pensou em continuar a pé o caminho para casa, mas por que estava alí? Tomou coragem e atravessou a rua. Passou ao lado do mendigo, ele com sempre, estava na calçada, com um copo plástico na mão, e não a percebeu. Ela...

sim, peguei o buquê

A mulherada se reunia eufórica e a noiva já estava se preparando, de costas para elas. Disse à colega do meu lado: "Vamos lá". "Fujo disso", ela respondeu. "Da última vez, uma baixinha rasgou o meu vestido". Vi que o negócio podia ser violento mesmo. Depois de insistir em vão, resolvi: "Eu vou lá". Como ficar de fora de umas das brincadeiras femininas mais divertidas nos casamentos? Fiquei no canto. Pensei: "não estou na direção da noiva, só pego se ela tacar bem torto!" O que seria bem improvável, na minha opinião. A noiva, de costas, levou com as duas mãos o buquê para o alto. Momentos de emoção. Gritaria histérica. Senti um leve arranhão da moça da frente no meu dedo, mas não adiantava mais: o buquê estava nas minhas mãos. No dia seguinte: "Não acho que você vai casar agora...". Respondi: "Eu também não". E me lembraram de algo: "Mas segundo a tradição, quem pega o buquê é a próxima a casar". De repente,...

Cinco amigos

Cinco amigos em um carro voltando à cidade natal. No caminho partilham as mesmas músicas, porém as músicas soam diferentes em cada uma das mentes. Um dorme a viagem quase inteira. Dois convesam a viagem quase inteira. Dois escutam a viagem quase inteira. E falam de carreira, de trabalho, de viagens, de experiências que tiveram nos mais diversos lugares: Estados Unidos, Londres, Austrália, Ásia, e enquanto isso, ao redor da estrada, bois pastam tranqüilamente nos pastos. Cinco mundinhos de calça jeans dentro de um carro em um ponto do mundo. De repente, o cheiro de usina de cana avisa que a viagem logo acabará. Quem dormia, acorda. Quem falava, emudece. Quem ouvia, se mexe e fala algumas palavras. A bucólica paisagem da estrada que chega à cidade desperta as mais variadas sensações nos cinco viajantes. Momento de silêncio. O vento entra pelas janelas e bate nas caras e nos cabelos. Os pensamentos são tantos que tomam conta de todo o espaço do carro. Ao acaso, pego o daquele que não nasc...

fragmentos eróticos

É possível se ter uma idéia de como se falava de sexo vários séculos antes de Cristo através da produção de poetas gregos e latinos. Muito do que restou são fragmentos, e as elegias eróticas de Minmerno se perderam, por exemplo. Mas ainda dá para se divertir muito com a obra de Catulo. É interessante observar que naquela época já existiam metáforas como salsicha, figo e buraco para se falar de coisas que ainda hoje temos a insistente mania de não chamar pelo nome. Em um sábado ensolarado, de forte vento, imaginei um futuro distante, em que a nossa cultura, aterrada, em escombros, estivesse sendo pesquisada cuidadosamente por arqueólogos. Eles poderiam, quem sabe, encontrar a capa de uma revista que eu acabara de observar em uma banca de jornais na avenida Paulista: três mulheres peladas, em fila, uma segurando a cintura da outra, e a seguinte chamada: Piiiuuuííííí!!!!

persistência

Há um tempo lembrei de uma história e pensei em contar aqui. Ficou no pensamento até agora, pois havia esquecido de contá-la. Ontem a noite, intermediada por horripilantes sessões de tosses, lembrei dela de repente. E hoje, se alguma vozinha interior perguntou “ei, você não vai contar a história?”, fingi que não era comigo. Mas não consegui mais evitar quando até o filme que acabei de ver no cinema me perguntou: “ e a história, hein?” Sim, porque o filme era sobre um menino surdo e a minha história também. Não sobre um menino, mas uma menina. Nossa mente tem destas coisas. Eis que um dia você lembra de um fato da sua vida que parecia ter sido esquecido para sempre. E no meu caso, foi a lembrança da convivência com esta menina, surda e muda, que estudou comigo durante a terceira série, numa escola que inaugurava naquele ano. Lembro que toda a turma aprendeu a linguagem dos sinais por causa dela, mas o importante mesmo era incentivar Vanessa a nos ouvir e a falar. Com o tempo já ente...

decepção

Ricardo tinha que encontrá-la. Ela tinha dado um sinal de que tudo poderia voltar, de que tudo poderia ser como antes. Ela não saía de sua mente e enquanto não a visse, não ficaria em paz. Resolveu fazer uma surpresa: iria esperá-la na saída da aula. Era uma tarde quente e abafada quando ele saiu de casa. Pegou um metrô e dois ônibus lotados e conseguiu chegar antes de a aula acabar. O céu escurecia e as nuvens ficavam carregadas. Começou a relampejar, a trovoar e uma forte chuva despencou de repente. Ensopado tentou abrigar-se debaixo de uma cobertura. O barulho da chuva era tanto que mal dava para ouvir o barulho da sirene que avisava o término da aula. Os alunos começaram a sair, um tumulto de carros, pessoas, guarda-chuvas formou-se em frente ao portão. Alguns saiam correndo com as pastas sobre as cabeças, com a tentativa de molhar-se menos. Os sapatos e as barras das calças ensopavam-se nas poças e enxurradas. Eis que o rosto dela surge no meio da confusão. Ela vai se desvencilhan...

celofanes e purpurinas

Durante a minha infância ouvi, não lembro se de uma peça de teatro infantil, se de um filme ou de uma criança curiosa, que os fantasmas quando morriam viravam papel celofane. Lembrei disto hoje, quando procurava papel para enfeitar uma cesta de doces para a festa junina. Pensei a princípio, enfeitá-la com celofane vermelho, mas acabei optando pelos papéis de seda, que podiam ser vendidos avulsos. Na loja, havia celofanes de várias cores e os transparentes eram um pouco mais baratos. Mas os rolos com várias folhas eram mais opacos. Não tinham a transparência, a delicadeza e a fineza de uma folha sozinha, solta ao vento. Às vezes tenho a impressão que são como aquelas gelatinas sem sabor em lâminas, que ao contato com qualquer água morna, dissolvem-se. E penso, quantos fantasminhas plufts, gasparzinhos e camaradas não estão hoje nas papelarias e lojas de artigos para festas? Esperando para enfeitar aniversários infantis, festas juninas, beneficentes e escolares. Fazendo companhia a eles,...

e uma boa hora para o senhor também

Na empresa, atendi o telefone. Ajudei um senhor a resolver o seu problema, e ele, agradecido, disse-me na despedida: “Que a Nossa Senhora do Bom Parto lhe dê uma boa hora. Realmente, eu precisava de boas horas naquele trabalho. Achei muito interessante este modo de enxergar as coisas. Ao invés de se falar “uma boa tarde”, ou “um bom dia”, se falaria “uma boa hora”. Agora porque justo a Nossa Senhora do Bom Parto foi escolhida para cumprir esta função, e não um Nossa Senhora qualquer, eu não sei. Educadamente, retribuí a cortesia: “Para o senhor também”. E ele respondeu: “Ei, para mim não”.

horário de almoço na Paulista

Era horário de almoço. Um bando de grandes homens engravatados, todos de terno em variados tons de cinza na calçada, vindo em minha direção. Entramos no mesmo local: um pequeno shopping na Avenida Paulista. Eu continuei andando pelos corredores, mas o grupo parou, como num consenso. Uma mulher que cruzava o meu caminho, olhava para a grande reunião de homens de terno e falou ao seu companheiro: “Eles gostam de brincar!”. Olhei para trás: estavam todos amontoados olhando atenciosamente para uma vitrine. Atrás dos vidros, dois cachorrinhos filhotes, branquinhos e fofinhos, brincavam um com o outro.